Texto certeiro é assim. Valeu amigo!
Sobre a palestra do pastor Paschoal Piragine Jr. Sobre as eleições 2010
Circulam na internet e-mails sugerindo que se assista ao vídeo do pastor Paschoal Piragine Jr. sobre as eleições 2010. O vídeo, de onze minutos, insta os ouvintes a não votarem no PT porque, segundo o pastor, é o partido que institucionalizará a iniquidade no Brasil. Não quero, necessariamente, deter-me em cada um dos pontos da palestra do pastor, repleta de imprecisões e generalizações perversas, além de falsos dados sobre a expulsão de deputados do próprio PT e o posicionamento da Igreja Católica frente ao partido. Uma abordagem um pouco mais detalhada do que foi dito por Paschoal Piragine pode ser vista em www.vigiai.net. Minha intenção é apenas a de mostrar a forma de atuação que marca os evangélicos e levantar alguns questionamentos sobre ela. Em termos simples: para os evangélicos como o pastor Piragine, iniquidade é aquilo que fere suas concepções privadas. Portanto, legalização do aborto e lei contra homofobia são questões tão iníquas a ponto de fazer o pastor quebrar um silêncio de trinta anos sobre uma situação político-eleitoral em vigor no país. É mais iníquo que tudo, portanto, aquilo que contraria sua visão particular sobre essas questões absolutamente complexas – que são, não por acaso, relacionadas à sexualidade, ponto de toque da ética evangélica. Mas o que dizer de outras questões sobre as quais sequer há ferrenho debate, porque são bandeiras de qualquer pessoa que luta por uma sociedade mais justa e igualitária? Nesses trinta anos de silêncio do pastor Piragine tivemos uma ditadura que torturou e matou pessoas inocentes, e, a se acreditar no que disse sobre sua própria postura, o pastor jamais levantou sua voz em público para condená-la; convivemos com uma sórdida campanha da mídia “global” para, num ato antidemocrático e tendencioso, prejudicar o candidato Lula às vésperas da eleição contra Fernando Collor, o mesmo que, após eleito, confiscou o dinheiro de milhares de pessoas, muitas das quais, até hoje, não se recuperaram totalmente desse ato sórdido; nas duas presidências de FHC o Brasil quebrou duas vezes, e isso significou e tem significado milhões de pessoas na miséria absoluta, desemprego em massa, famílias destruídas pela pobreza; quando o mesmo FHC concorreu à reeleição na base de uma estratégia econômica que fez o país quebrar poucos dias após sua segunda posse, o pastor Paschoal Piragine se calou solenemente; por que, se a questão é a “iniquidade pela qual Deus julgará uma nação”, o mesmo pastor não se levantou para sugerir que não se votasse no presidente Lula novamente, ele que estava à frente de um governo que havia patrocinado o famigerado mensalão? Todas essas questões públicas, que tocam milhões de pessoas, não incomodam o pastor Piragine tais como a questão do aborto e da criminalização da homofobia, as quais, há que se reconhecer, são por demais complexas, não envolvem apenas uma luta maniqueísta dos “bons” contra os “maus”, conhecem fervorosos defensores e detratores de suas propostas e têm sido motivo de amplo debate na esfera política, na qual, há que reconhecer qualquer pessoa minimamente bem informada, encontra posições as mais variadas independentemente do partido político. Gestos como o do pastor Piragine só confirmam a tendência evangélica de se preocupar com as questões que tocam seu próprio gueto, seu mundinho fechado e canhestro, fazendo desse seguimento religioso um que, contrariamente ao ensino maior de seu mestre, Jesus Cristo, vira às costas ao mundo e fica surdo aos seus clamores. A atuação dos profetas do Israel se dava, sobretudo, contra os que exploravam órfãos e viúvas, contra os que eram surdos ao grito dos desfavorecidos, contra sacerdotes que desprezavam as causas sociais enquanto se fechavam confiantemente em seus suntuosos templos acreditando que Deus ali era manifesto. Nessa visão, iniquidade é, mais que questões de foro privado, a injustiça social, o “pecado estrutural” que arrasta milhões de pessoas à miséria e à falta de oportunidades, à condenação a uma vida sujeita, incapaz de um mínimo de autonomia. Gostaria de ver evangélicos como o pastor Paschoal Piragine utilizando seu púlpito para dizer às pessoas: não votem em partidos que só pensam em defender as classes mais abastadas; não votem em políticos que não têm a ficha limpa; não votem em evangélicos só porque são evangélicos; participem da fiscalização do poder executivo e legislativo de sua cidade; votem no partido que encaminhará nosso país em uma direção de maior oportunidade aos menos favorecidos. Gostaria que todas as questões que conduzem à iniquidade tirassem o pastor de seu silêncio, não somente aquelas relacionadas ao aborto e à homossexualidade. Gostaria que o pastor instruísse as pessoas a não comparem livros de pastores norte-americanos que apoiam a guerra do Iraque, na qual morreram milhares de homens, mulheres e crianças inocentes. Isso, pastor, não é iniquidade? Gostaria que o pastor utilizasse sua influência para apoiar os movimentos sociais e mesmo os partidos políticos que lutam pela reforma agrária, uma vez que nosso país é o que mais concentra terras no mundo. Essa desigualdade no campo, caro pastor, não é iníqua? Em trinta anos de Brasil a maior iniquidade é a legalização do aborto e dos direitos civis aos homossexuais? E as milhares (ou milhões?) de mulheres que morreram por conta dessa prática, isso também não é iniquidade? E os milhares de homossexuais assassinados unicamente por conta de sua opção sexual, isso não é iníquo? Há, então, que se legalizar o aborto, pura e simplesmente? Não, da mesma maneira que sua proibição pura e simples ignora os profundos dramas envolvidos em casos de estupro, de má formação fetal, de mulheres que engravidam sob as condições mais impróprias para se gerar uma criança e de milhões de abortos clandestinos praticados anualmente no Brasil. Há que se descriminalizar a homofobia? Sim, da mesma forma que não se pode impedir as pessoas de ter opiniões, quaisquer que sejam, sobre os mais variados assuntos. Que os religiosos não mais poderão se pronunciar desfavoravelmente à prática homossexual é uma leitura equivocada da lei. De resto, essa lei deveria fazer os evangélicos pensarem em sua atitude frente aos homossexuais, que, atualmente, é de rejeição explícita, “pura e simples”, para novamente utilizar uma expressão que parece marcar a visão de mundo desse seguimento. Como diz o vídeo, “igreja brasileira, reaja, desperta nossas almas, Senhor, vivifica a tua igreja, tira a venda de nossos olhos”. Que assim seja.
Leandro T. de Almeida
Escrito por André às 6:33:39 PM
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